A comunhão sempre foi uma marca do povo de Deus. Os discípulos de Jesus sempre foram caracterizados pela humildade, paciência e a firme opção pela paz. No mundo altamente competitivo em que vivemos, onde muitos se aproveitam do suor alheio, é até estranho não aceitar as vantagens desonestas, não invejar o sucesso alheio, evitar a vingança e até torcer pela felicidade dos inimigos.
Não existe poder maior no cristianismo do que a capacidade de obedecer aos ensinamentos de Jesus. Os evangelhos mostram que ele se apegou a pessoas simples e nunca quis que elas se destacassem por suas habilidades intelectuais, ou que fossem invejadas pela alta condição financeira, apenas que compreendessem e espalhassem o seu amor. A igreja que ele criou só cumpriria o seu papel se vivesse e trabalhasse em amor.
O amor como sinal da conversão
Amar é o primeiro e mais forte impulso da conversão a Cristo. Ao aceitarmos a Jesus renunciamos a todo e qualquer desejo de fazer mal ao próximo. Se não estamos dispostos a amar a todos, é porque o amor de Cristo ainda não nos possuiu completamente. Não há como servir a Deus sem amor. A nossa caminhada com Cristo começa no amor, se sustenta no amor, e culminará no amor.
Quem deseja seguir a Cristo precisa estar disposto a amar. Aqueles que se recusam a aceitar o próximo, também não podem aceitar a Jesus. Não há cristianismo sem Cristo e sem a comunhão dos cristãos.
A presença de Jesus não se harmoniza com sentimentos perversos. Num coração cheio de Deus não cabe o ódio e o desprezo ao próximo. Se quisermos servir a Deus, precisamos deixar aquilo que lhe ofende. As primeiras comunidades cristãs aprenderam o segredo da comunhão. Elas sentiam o amor de Cristo e permitiam que esse amor passasse para os seus relacionamentos.
A conversão de Saulo mostra isso. Por muito tempo ele perseguiu os cristãos e fez de tudo para acabar com a igreja. Ananias tinha muitos motivos para chama-lo de assassino e opressor, mas, ao saber de sua conversão, o chamou de “Irmão Saulo”. Antes adversários, agora companheiros de ministério! Somente a crença em Jesus permite isso. A unidade cristã é primeiramente espiritual e operada pelo Espírito Santo. Quanto mais amarmos a Deus mais estaremos prontos a amar o nosso semelhante.
Amar o próximo não significa aceitar ou concordar com os seus erros. O nosso dever de amar não pode enfraquecer os nossos valores e nem tampouco diminuir o nosso zelo pela Palavra de Deus. Não podemos confundir amor com aceitação ao pecado. Temos o dever de zelar pela verdade do evangelho, mesmo que para isso seja necessário reprovar a conduta daqueles a quem amamos.
O nosso amor ao próximo não pode ser maior do que o nosso amor a Deus. Se eu amar a meu irmão mais do que a Deus, não sou digno de Deus. Não podemos defender determinadas pessoas e comportamentos em detrimento da nossa sinceridade para com Deus. O relacionamento com Deus é que deverá regular o relacionamento com o próximo, e não o contrário.
O fato de sermos crentes não significa que devemos concordar com tudo e com todos. As discórdias são normais até dentro da igreja. Um relacionamento baseado no amor de Cristo poderá suportá-las. Irmãos podem discordar. Preciso ter maturidade suficiente para saber que os outros pensam diferente de mim. Os homens de Deus na Bíblia discordaram e lutaram pelas suas preferências.
O amor de Deus em nossos corações não garante que nunca sentiremos raiva. Muitos crentes pensam tão obstinadamente no amor, que acabam achando que estão desviados ao se sentirem irados. Deus conhece toda a nossa estrutura. Ele planejou cada detalhe do nosso ser, inclusive a raiva. Ela faz parte dos nossos relacionamentos, e ninguém pode impedi-la ou mesmo prever quando ela vai aparecer.
Irar-se não é pecado. Não pecamos por sentirmos raiva, mas podemos pecar se dermos lugar a ela. A ira, o rancor e o desapontamento podem atrapalhar o nosso raciocínio. Quando agimos na ira, é natural o uso de palavras grosseiras e expressões descontroladas. A ira do homem não produz o que Deus aprova (Tg 1.20).
O maior mandamento
O amor é o maior e o mais antigo mandamento de Deus, e esteve na base de todas as instituições que ele criou. Deus nunca fez nada sem amor. O primeiro casal deveria se amar; os primeiros sistemas de governo deveriam se basear no amor; quando Deus escolheu um povo pediu que eles vivessem em amor, e a Lei que ele lhes deu tinha como primeiro ponto o amor.
Quando Jesus veio e criou a igreja também lhe deu o dever de amar e espalhar o seu amor. Os cristãos deveriam compartilhar não apenas bens materiais, mas principalmente os seus sentimentos. A unidade da igreja não pode ser apenas uma amizade circunstancial, baseada em troca de favores. Estamos ligados uns aos outros não por força dos laços denominacionais, mas acima de tudo pelo amor de Cristo.
Não temos o direito de escolher a maneira de tratar a cada pessoa, Jesus ordenou que amássemos como ele nos amou (Jo 13.34). Nenhuma igreja tem autoridade para alterar o modelo deixado por Jesus. Não amamos simplesmente porque decidimos amar, mas principalmente porque Ele nos mandou. Amar não é uma escolha, é um mandamento.
O amor ou o ódio são caminhos que manifestam os verdadeiros discípulos de Jesus. Ninguém ama ou aborrece sem querer. Somos capazes tanto de amar como de odiar. Se quisermos, nada nos impedirá de amar, ou nos obrigará ao ódio. Amar nem sempre é a opção mais fácil, mas é sempre a melhor.
A qualidade do nosso relacionamento com Deus, determina a qualidade dos nossos relacionamentos com o próximo. O homem carnal se incha e rejeita a necessidade da aproximação. Somente um crente verdadeiramente convicto e cheio da alegria do céu, poderá compreender a necessidade do amor cristão. A consciência daquilo que Jesus nos fez é a melhor medida para aprimorar os nossos relacionamentos.
Precisamos aprender a amar com Jesus. Será que ele deixa de olhar para nós quando lhe ofendemos? Fala mal de nós por não concordar com as nossas ideias? Tem inveja do nosso crescimento? Devemos tratar o próximo olhando para o tratamento que recebemos de Deus (Mt 6.14). Se recebemos um fardo leve do Senhor, não podemos ser pesados aos nossos irmãos. Como disse Mathew Henry: “Não devemos impor nenhuma condição para a aceitação de nossos irmãos, a não ser as que Deus impôs para aceita-los”.
Os discípulos de Jesus serão sempre conhecidos pelo amor. Toda vez que decidimos amar, ficamos mais parecidos com Jesus. Você quer que todos lhe conheçam como um homem (ou uma mulher) de Deus?  A receita é clara: ame.

Ministro do evangelho, Teólogo, Filósofo e Historiador